O Mercado Público e a paisagem que o centro histórico merece

O Mercado Público e a paisagem que o centro histórico merece

Índice

O Mercado Público Municipal de Rio Grande não é só um prédio. É o ponto em que a cidade toca a água. Uma linha reta sai da Praça Xavier Ferreira, atravessa o entreposto e chega à Lagoa dos Patos: o largo, a doca e as colunatas da Banca do Peixe formam, juntas, a paisagem mais eloquente do centro histórico. A arquiteta Jane Borghetti, ao inventariar os bens de interesse da cidade, descreveu essa transparência entre terra e mar como um traçado inspirado em Lisboa depois do terremoto de 1755 — um lugar único, difícil de repetir em outra cidade brasileira.

Essa paisagem, porém, tem sido tratada como resto. O trecho anexo ao mercado, que já funcionou como praça e jardim, virou um piso vazio de concreto e tijolo. Recentemente, o mesmo chão recebeu um módulo itinerante de formação de soldador industrial, ligado ao polo naval. Qualificar trabalhadores do porto é uma necessidade da economia riograndina. Ocupar com um trailer o espaço mais sensível do centro histórico é outra conversa.

Largo anexo ao Mercado Público, com um módulo itinerante estacionado diante da Banca do Peixe O largo entre o Mercado Público e a Banca do Peixe, hoje um piso livre ocupado de forma provisória. Ao fundo, o prédio da Alfândega e a colunata que dá para a lagoa.

Neste artigo, recuperamos a história do mercado, o papel da agricultura da Ilha dos Marinheiros e exemplos — no Brasil, no Prata e no Canadá — em que modernizar não significou apagar a memória. Ao final, propomos devolver àquele largo o uso que o centro histórico, o turismo e o agricultor familiar pedem.

O mercado mais antigo do Estado

Rio Grande nasceu em 19 de fevereiro de 1737, quando o brigadeiro José da Silva Paes fundou o Presídio Jesus-Maria-José na desembocadura da Lagoa dos Patos. Era um posto português no tabuleiro platino: a Coroa precisava de um porto entre Laguna e a Colônia do Sacramento, em disputa com a Espanha. A vila, o porto e, mais tarde, a indústria têxtil e o polo naval moldaram a cidade. O mercado é a peça civil desse mesmo desenho — o lugar em que o alimento das ilhas e o pescado da lagoa encontravam o centro urbano.

A ordem de construção foi assinada em 1841 pelo então presidente da província, Saturnino de Souza Oliveira. Em 1846 o entreposto já funcionava, ainda incompleto: é o Mercado Público mais antigo em atividade no Rio Grande do Sul. A Banca do Peixe, ao lado, data de 1853 e segue no mesmo ofício — receber o pescado fresco que chega na doca. Em 1857 a Câmara emitiu apólices para ampliar o prédio; a obra, inaugurada em 1864, foi erguida sobre o primeiro mercado, demolido só quando o novo já operava.

O conjunto integra o centro histórico no mesmo plano da Biblioteca Rio-Grandense, da Capela de São Francisco, do antigo quartel e da Alfândega, em torno da Praça Xavier Ferreira. Uma restauração concluída em 2006 devolveu ao prédio a feição original. Em 2026 a Prefeitura investiu cerca de R$ 280 mil na revitalização interna — iluminação em LED, troca de vidros, pintura, câmeras — e manteve cerca de 40 bancas em funcionamento, entre gastronomia, pesca, vestuário e cultura gaúcha. O perfil oficial do mercado registra o prédio vivo: almoços à beira da lagoa, eventos, movimento de turistas e de quem mora aqui.

O que ainda falta não é apenas manutenção do edifício. É um projeto para o chão que o cerca e para o alimento que, por gerações, chegou até ele.

A Ilha dos Marinheiros e o que a cidade come

A Ilha dos Marinheiros é a maior e mais fértil ilha da Lagoa dos Patos. Colonizada por portugueses desde o século XVIII, forneceu água, lenha e madeira aos primeiros moradores da vila. No auge agrícola, abastecia todo o comércio de Rio Grande e ainda exportava hortaliças, frutas e vinhos artesanais. A jeropiga — vinho fortificado de origem lusitana — e as bancas de verdura no mercado eram a cara visível dessa economia.

Esse elo não é só memória. Segundo a Prefeitura, a ilha ainda produz cerca de 80% das hortaliças consumidas no município. A agricultura é familiar, de pequena escala, exposta a cheias da lagoa e a um escoamento cada vez mais dependente de supermercados e do centro de distribuição, em vez da venda direta no centro histórico. O jornalista Klécio Santos e a reportagem do Jornal do Comércio sobre os mercados gaúchos registram o mesmo lamento de quem cresceu na ilha: o hortigranjeiro, antes opulento nos corredores, reduziu-se a poucas bancas.

Valorizar o Mercado Público, nesse quadro, é valorizar quem planta. Um centro de hortifruti atrelado ao agricultor familiar das ilhas reabre um circuito curto — da chácara à banca — que a cidade já conheceu e que a alimentação escolar, o turismo e a renda rural ainda pedem.

Mercados que modernizaram sem apagar a história

Outros mercados públicos mostram que é possível inovar sem tratar o entorno como descampado.

Em Porto Alegre, o Mercado Público foi inaugurado em 1869, em estilo eclético com forte traço neoclássico. Sobreviveu a incêndios, à ameaça de demolição nos anos 1970 e à enchente de 2024. A restauração de 1987–1997 cobriu o pátio interno com estrutura de aço e vidro, recuperou as arcadas e criou convivência sem demolir o prédio. Tombado em 1979, segue como cartão-postal e centro de abastecimento: o passado permanece, a infraestrutura é do século XXI.

Em Montevidéu, o Mercado del Puerto abriu em 10 de outubro de 1868, com estrutura de ferro fabricada em Liverpool. Nasceu para abastecer navios e a Ciudad Vieja com frutas, verduras e carnes. Declínio e supermercados o esvaziaram; a partir dos anos 1970, já Monumento Histórico Nacional, as antigas bancas deram lugar a um polo gastronômico que hoje é escala obrigatória de quem visita o Uruguai. A cidade compartilha com Rio Grande o tabuleiro português do Prata: ocupação lusitana da península em 1723, Colônia do Sacramento em 1680, o mesmo conflito que explica a fundação de 1737. O mercado montevideano ensina uma lição dupla — o ferro vitoriano convive com o uso contemporâneo, mas também alerta: se só restar restaurante, perde-se o abasto. Rio Grande ainda tem ilha, pescador e hortaliça para não repetir essa redução.

No Canadá, o Marché Jean-Talon, em Montreal, inaugurado em 1933, é um dos maiores mercados a céu aberto da América do Norte. Agricultores da região expõem o que a estação oferece: brócolis e couve-flor de Quebec, rabanetes, flores, ervas, pimentões. A estrutura é simples — bancas, corredores, iluminação, teto leve. O efeito é o contrário do concreto vazio: cor, cheiro, gente e renda no mesmo lugar.

Corredor do Marché Jean-Talon, em Montreal, com bancas de hortaliças e visitante Marché Jean-Talon, Montreal: corredores abertos, produtores locais e um mercado que funciona como praça coberta.

Bancas de brócolis, couve-flor e berinjela no Marché Jean-Talon, com selo de produto de Quebec Produto identificado, preço à vista, banca de madeira. O desenho é modesto; o resultado é cidade.

Floricultura no interior do Marché Jean-Talon Flores e plantas no mesmo recinto das hortaliças: o mercado como paisagem, não só como estoque.

Pelotas, Jaguarão e o próprio restauro de 2006 em Rio Grande confirmam que o prédio resiste quando a cidade decide que ele importa. O passo que ainda não foi dado aqui é o do entorno e o da agricultura.

Um largo à altura do centro histórico

O curso de soldador do polo naval tem endereço possível em galpões, escolas técnicas e áreas industriais. Não precisa — e não deveria — ocupar o largo que articula Mercado, Banca do Peixe, Alfândega e lagoa. Esse chão pede outro programa.

A Associação Rio Grande Amanhã propõe tratar a área anexa como extensão do mercado, não como pátio residual:

  • Uso — centro comercial de hortifruti ligado à agricultura familiar das ilhas (Marinheiros, Torotama e demais), em diálogo com as peixarias, os restaurantes e as bancas já instaladas.
  • Arquitetura — projeto de madeira, rústico, iluminado, com bancas e circulação clara, em escala de mercado e não de canteiro industrial. A referência não é o trailer, nem o concreto liso: é a colunata da Banca do Peixe, o casario e os exemplos de Montreal e de Porto Alegre, em que a estrutura nova não compete com o prédio histórico.
  • Turismo — o visitante que já chega de cruzeiro, de ônibus ou a pé pela Praça Xavier Ferreira encontraria o que o centro histórico promete e quase entrega: alimento local, vista da lagoa, patrimônio e comércio de verdade.
  • Inovação — circuitos curtos, identificação de origem, capacitação de permissionários (já ensaiada em parcerias como a do Sebrae RS) e um desenho que possa receber feira, cultura e gastronomia sem expulsar o hortigranjeiro.

Módulo itinerante estacionado em frente à fachada clássica do Mercado Público A fachada do século XIX e um uso que não conversa com ela. O prédio aguenta o tempo; o entorno pede projeto.

Conciliar modernidade e história, neste caso, não é um slogan. É recusar a falsa escolha entre polo naval e centro histórico. A cidade comporta os dois — em terrenos diferentes, com linguagens diferentes.

Reintegrar o mercado à comunidade

Preservar o Mercado Público é mais do que pintar a parede interna. É devolver a ele a função que o inventou: ser o encontro da ilha, da doca e da cidade. Um largo de madeira e bancas, ocupado por quem planta e por quem compra, reintegraria o espaço paisagístico mais importante de Rio Grande à vida cotidiana — e melhoraria a comercialização de um setor que ainda alimenta a maior parte das hortaliças da mesa riograndina.

A Associação Rio Grande Amanhã convida a Prefeitura, a Secretaria de Agricultura e Pecuária, permissionários, agricultores das ilhas, instituições de ensino e a comunidade a discutir esse projeto. Para contribuir, entre em contato ou acompanhe o Mercado Público e as nossas redes.

Foto de capa: Mercado Público do Rio Grande (@mercadopublicorg), 30 de julho de 2024. Demais imagens do largo: Associação Rio Grande Amanhã. Imagens de Montreal: Marché Jean-Talon.

Share :